eixo temático
CULTURA E POLÍTICA NA CONSTRUÇÃO DO ESTADO NACIONAL BRASILEIRO (1822 – 1930)
Tema 1
Embates políticos e culturais no processo de construção e afirmação do Estado Nacional
Tópico 9
Resistência e conflitos na Primeira República
Habilidades
9.1. Analisar os impactos da prática política e do liberalismo brasileiro da Primeira República sobre os segmentos menores favorecidos da população (trabalhadores urbanos, camponeses e setores médios)
9.2. Discutir os movimentos sociais da época: exclusão social e poder messiânicos; questão fundiária, banditismo social e movimentos místico-religiosos como reações às práticas liberais, em análise comparativa com situações do tempo presente
9.3. Analisar as ações do Estado republicano em favor da modernização e seus impactos sobre a população, considerando o papel do discurso científico (higienismo)
9.4 Analisar fontes (jornais revistas da época) sobre a Revolução da Vacina
9.5 Analisar as diversas imagens sobre a Revolta da Chibata em fontes como música fotografias e jornais.
Porque ensinar
O projeto de proclamação da República foi concebido para atender aos interesses de uma elite agro-exportadora cafeeira, especialmente ligada às atividades econômicas desenvolvidas no oeste paulista. Nessa região, a grande produção de café, rapidamente escoada através das ferrovias, e a utilização do trabalho assalariado geravam um mercado consumidor em franca expansão. Sem o respaldo necessário para fazer valer seus interesses, essa elite se empenhou pela instauração do regime republicano, objetivando subverter as relações de poder que favoreciam até então a elite burocrática e a aristocracia agrária imperial (nordestina e sulista).
Por outro lado, no intuito de defender seus interesses, essa nova elite governante se empenhou pela continuidade de uma política liberal econômica e jamais pretendeu estender a liberdade social e política aos demais grupos sociais.
Essas elites republicanas pretendiam continuar com o projeto de construção de uma nacionalidade sem cidadania – “pertencer sem exercer”. Temos, portanto, um projeto ideológico da República brasileira que efetivamente continuou a desconsiderar a grande maioria de sua população enquanto sujeito apto a participar das decisões acerca dos destinos da nação. Nesse sentido, a República e o liberalismo não resultaram em democracia.
Condições prévias para ensinar
Neste tópico, considera-se necessário resgatar os conceitos já trabalhados no tópico 18 (ideologia, liberalismo, nacionalismo) e adicionar os seguintes conceitos: oligarquias, movimentos sociais, higienismo, sanitarismo, positivismo, fanatismo, modernização.
Sugestões para ensinar
O período da República Velha (1889 – 1930) foi marcado pelas mais variadas formas de resistências à exclusão social empreendida pelo novo regime de governo. A nova elite governante respaldava suas ações na liberal-democracia, de inspiração norte-americana, e no autoritarismo, de inspiração positivista. A partir da influência dessas duas doutrinas, o governo republicano tomou para si a “missão” de decidir o destino da população brasileira fundamentado na razão e na ciência positivista. Exemplo disso pode ser observado nas reformas urbanas promovidas entre o final do século XIX e início do XX, especialmente no Rio de Janeiro e mesmo na construção das novas capitais republicanas, como Belo Horizonte e Sergipe.
Para melhor compreender o caráter autoritário das relações entre governo republicano e os grupos sociais menos favorecidos, resgataremos alguns acontecimentos como a reforma Pereira Passos (1903) e a Revolta da Vacina. (1904), ambas ocorridas no Rio de Janeiro.
Atividade 1
Img 01 - Nossa História, I, nº 12, p. 84
Img 02 - História Viva, I, nº11, set. 2004, p. 84.
Pereira Passos, o prefeito demolidor[1].
O engenheiro Francisco Pereira Passos se tornou prefeito do Rio de Janeiro em 1903, nomeado pelo Presidente Rodrigues Alves. A cidade que recebeu era chama pelos jornalistas mais exaltados como pocilga e pútrida, por conta do crescimento desordenado da população, das constantes epidemias de febre amarela e a falta de higiene que cercava tanto os numerosos cortiços como as tortuosas ruas centrais da cidade. O governo classificou como prioridades o melhoramento do porto, a implantação de campanhas higienistas lideradas por Osvaldo Cruz e a reurbanização do centro do Rio. Para rasgar a Avenida Central e alargar outras vias na área, Pereira Passos ordenou uma campanha de demolição sem precedentes, que, em nove meses, botou abaixo 614 prédios, de cortiços habitados pelas camadas mais pobres da sociedade a igrejas de valor arquitônico inestimável. (...) Apesar de muitas dessas medidas serem necessárias ao saneamento da cidade, o autoritarismo do prefeito provocou um grande descontentamento popular.
• Sugestão de atividade:
1) Divida a turma em grupos de 4 a 5 alunos. Distribua as fotos e o texto. Em seguida, solicite que cada grupo prepare um texto pessoal no qual relacionem os documentos de época ao texto complementar. Incentive-os a refletir acerca do impacto dessa reorganização do espaço em relação ao cotidiano das pessoas comuns, especialmente entre a população pobre da cidade.
2) Após a elaboração do texto, cada grupo elegerá um membro para ler seus comentários para a turma. Ao final de cada leitura, a turma deve ser incentivada a complementar as considerações lidas. Relacione as melhores considerações no quadro e permita aos alunos reelaborar o texto produzido.
A Revolta da Vacina (1094) deve ser abordada em seqüência a reforma Pereira Passos, pois ambos fazem parte do mesmo contexto e, portanto, sintetizam as ações autoritárias do governo republicano para resolver os problemas de saúde pública e de consolidação do processo civilizatório já empreendidos desde os tempos do Império. Rodrigues Alves, representante de elite cafeicultora, sabia da ameaça representada pela febre amarela aos emigrantes que trabalhavam na lavoura e das conseqüências negativas para as atividades econômicas, especialmente no setor agro-exportador cafeeiro. Para erradicar as doenças infecciosas, ele tomou medidas autoritárias, como já assinalado no texto anterior.
A imprensa da época publicou uma vasta produção de caricaturas que documentam as inúmeras manifestações de resistência à vacinação obrigatória da população da cidade do Rio de Janeiro imposta pelo governo Rodrigues Alves. O maior alvo das críticas era Osvaldo Cruz, médico fluminense de formação sanitarista, especialista em microbiologia pelo Instituto Pasteur. Osvaldo Cruz foi convidado por Rodrigues Alves para assumir o cargo de diretor de Saúde Pública empreender o trabalho de erradicação de doenças infecciosas, como a febre amarela, peste bubônica e varíola. Tendo em vista a grande participação da imprensa tanto na manifestação de resistências da população, que culminaram na Revolta da Vacina, em 1904, selecionamos as imagens abaixo para serem interpretadas em sala-de-aula. E a partir dessas imagens, proponha aos alunos, a elaboração de uma dramatização teatral na qual estejam representados os elementos presentes nas caricaturas (autoritarismo das políticas de saúde pública, a desinformação da população, a imposição da ciência sobre o cotidiano).
Img 03 - História Viva, I, n. 11, set. 2004, p. 85
Img 04 - FERNANDES: 1999, 65 .
Atividade 2
Como já vimos, o autoritarismo caracterizou as políticas de saúde pública empreendidas pelos governos do período da República Velha (1889 – 1939). Certamente, essas práticas autoritárias se estenderam para solucionar os demais problemas econômico-sociais, sobretudo quando esses se referem às demandas e resistências da população pobre, tanto no campo quanto nas cidades.
Em oposição ao caráter laico e cientificista da República, vários movimentos de caráter messiânico ocorreram nesse período, de norte a sul do país. Citamos como exemplo a guerra dos Canudos e o conflito do Contestado.
A Guerra de Canudos (1896-1897) mobilizou mais de 10 mil soldados deslocados de 17 estados brasileiros e distribuídos em 4 expedições militares. Estima-se que morreram mais de 25 mil pessoas, culminando com a destruição total da cidade. Foi um conflito singular na história dos primeiros anos do Brasil República, que aconteceu no período do governo de Prudente de Moraes (1894 - 1898).
Quando a influência do movimento de Antônio Conselheiro atingia seu auge, o Brasil havia proclamado a República. Conselheiro, tradicionalista como era, recusou-se a aceitar o novo regime, alegando ser a República um instrumento do anti-Cristo, uma ordem estabelecida por Satanás, que teve a audácia de separar a Igreja do Estado, além de instituir o casamento civil, usurpando da Igreja o poder oficial e exclusivo de celebrar matrimônios. No dia 05 de outubro de 1897, após um ano de incensáveis lutas e uma feroz, o arraial chamado Belmonte, fundado por Antônio Conselheiro, no Nordeste da Bahia, foi arrasado. Além de ter sido destruída pela guerra, também foi alagada, em 1968, pelas águas do Açude de Cocorobó. Existe uma cidadezinha que leva o nome da histórica Canudos, atualmente, a 10 km da cidade original.
Nas palavras de Euclides da Cunha: “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até o esgotamento completo. Expugnando palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam ruidosamente 5.000 soldados".
• Sugestão de atividade:
Direção: Sérgio Rezende
Elenco: José Wilker Paulo Betti, Marieta Severo, Claudia Abreu, Selton Melo, Roberto Bomtempo.
Roteiro de Atividades: durante a exibição do filme solicite aos alunos observar os seguintes itens:
a) A figura de Antônio Conselheiro com a representação do messianismo no Brasil
b) As demandas da população rural pobre naquele período
c) As ações autoritárias do Estado Republicano
d) O conflito entre o poder do discurso religioso e a imposição da ordem laica promovida pela República
O nome da região do Contestado é fruto da disputa de territórios entre Santa Catarina e Paraná, ocorrida desde os tempos do Império e somente resolvida em 1916, através de um acordo imposto pelo presidente Wenceslau Brás que concedeu ao Paraná a posse definitiva do território. O conflito ocorreu entre 1913 e 1916, envolvendo cerca de oito mil militares das tropas do governo contra dez mil combatentes do Exército Encantado de São Sebastião, composto na maioria de caboclos luso-brasileiros. Os estudos sobre o conflito definem que a insurreição do sertanejo catarinense foi uma reação ao avanço do capitalismo estrangeiro na região, influenciada pela construção da ferrovia e da madeireira Lumber Company, além da disputa de territórios entre Paraná e Santa Catarina. O conflito foi marcado pelo jogo de interesses entre fazendeiros e políticos, bem como pelo misticismo dos caboclos, ampliado pela luta pela posse da terra.
O fanatismo dos caboclos tem origem na crença do sebastianismo lusitano dos caboclos de origem lusitana. Desamparados pela autoridade pública e mesmo pela Igreja, vivendo bastante isolados, o messianismo surgiu através da figura de João Maria, morto de pelas tropas catarinense em 1912. O movimento messiânico foi revigorado em 1913, quando surgiu outra “cidade-santa”, formada por discípulos de João Maria que acreditavam na sua ressurreição, assim como aconteceria com D. Sebastião de Portugal. Como em Canudos, o governo republicano reagiu com violência ao movimento e após várias investidas, massacrou os adeptos ao movimento e ignorou as demandas dos rebeldes.
Leia no texto abaixo, retirado da Revista “Nossa História”, ano I, nº 10, agosto de 2004, o relato de sobreviventes desse conflito e proponha aos alunos uma discussão acerca do termo fanatismo e as suas diferentes possibilidades de significado.
Em seguida, solicite aos alunos a elaboração de um texto pessoal escrito no qual sejam relacionados os aspectos comuns entre o conflito de Canudos e o do Contestado.
Revolta da Chibata
Atividade 3
Em grupos leiam a reportagem sobre a Revolta da Chibata. Reflitam, coletivamente, sobre o texto. Registre as reflexões no caderno.
Marinheiros e a Revolta da Chibata
João Bonturi - Especial para a Folha de S.Paulo
Em 22 de novembro de 1910, o município do Rio de Janeiro amanheceu sob a ameaça dos encouraçados São Paulo e Minas Gerais, pertencentes à Marinha brasileira.
Nessa ocasião, os marinheiros revoltaram-se, assassinaram o comandante Batista das Neves e prenderam os oficiais. Para surpresa geral, eles não pretendiam derrubar o governo. "Não queremos a volta da chibata. Isso pedimos ao presidente da República e ao ministro da Marinha. Queremos a resposta já e já. Caso não a tenhamos, bombardearemos as cidades e os navios que não se revoltarem."
A situação chegou a esse ponto porque os marinheiros eram quase todos negros ou mulatos, comandados por uma oficialidade branca; o uso de castigos físicos era semelhante aos maus-tratos da escravidão, abolida em 1888. Por outro lado, a reforma e a renovação dos equipamentos e técnicas da Marinha eram incompatíveis com um código disciplinar dos séculos 18 e 19.
Além da extinção da chibata, os revoltosos comandados por João Cândido exigiram a anistia aos envolvidos no movimento. O governo, o Congresso e a Marinha tiveram divergências, pois a subversão da hierarquia militar (desobediência às ordens superiores) é um grave crime nas Forças Armadas.
A Marinha atacou os revoltosos com dois navios menores. Além de revidar, os marinheiros bombardearam a ilha das Cobras, exigiram o aumento dos ordenados e a diminuição das horas de trabalho.
O governo cedeu, mas, para não evidenciar a derrota, exigiu uma declaração de arrependimento dos revoltosos.
Porém as hostilidades prosseguiram. Um novo levante aconteceu em dezembro de 1910, na ilha das Cobras, mas, dessa vez, o governo, que sabia de tudo, reprimiu a revolta com violência.
Assim a República exibia cruamente a mentalidade escravista da elite brasileira.
Disponível em:
Atividade 4
“Mestre-Sala dos Mares", de João Bosco e Aldir Blanc, composto nos anos 70, imortalizou João Cândido e a Revolta da Chibata. Como diz a música, seu monumento estará para sempre "nas pedras pisadas do cais". A mensagem de coragem e liberdade do "Almirante Negro" e seus companheiros resistem.
Leiam a letra original sem censura e a letra após censura durante ditadura militar e debata com os colegas sobre as alterações sofridas.
O Mestre Sala dos Mares
(João Bosco / Aldir Blanc)
(letra original sem censura)
Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo marinheiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o almirante negro
Tinha a dignidade de um mestre sala
E ao navegar pelo mar com seu bloco de fragatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam das costas
dos negros pelas pontas das chibatas
Inundando o coração de toda tripulação
Que a exemplo do marinheiro gritava então
Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o almirante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
Mas faz muito tempo
O Mestre Sala dos Mares
(João Bosco / Aldir Blanc)
(letra após censura durante ditadura militar)
Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o navegante negro
Tinha a dignidade de um mestre sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam das costas
dos santos entre cantos e chibatas
Inundando o coração do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro gritava então
Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
Mas faz muito tempo
Disponível em: http://www.cefetsp.br/edu/eso/patricia/revoltachibata.html. Data de acesso: 09/10/2008
Atividade 5: Trabalhando com imagens
Observem cada uma das imagens abaixo. Criem legendas para cada uma delas e socialize com a turma.
Orientação Pedagógica: Resistências e conflitos na Primeira República
Currículo Básico Comum - História Ensino Médio
Centro de Referência Virtual do Professor - SEE-MG/2008
